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Tropeada histórica cruza o Sul do Estado e revive caminhos que moldaram a economia brasileira

28/12/2025

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Desde o dia 18 deste mês, um grupo de tropeiros percorre a região Sul do Rio Grande do Sul em uma jornada que deve chegar a mil quilômetros e atravessa séculos de história. Montados a cavalo, enfrentando sol, chuva e longas distâncias diárias, eles seguem rumo a Vacaria (RS), refazendo antigos caminhos do tropeirismo — atividade que esteve na base da formação econômica, social e cultural do Estado e do Brasil.

Na manhã deste sábado (27), o grupo realizou uma parada na divisa do município do Rio Grande com Santa Vitória do Palmar, onde foi recepcionado pelo Executivo Municipal e o Sindicato Rural local. Pela Prefeitura, esteve presente o secretário de Relações Institucionais e Comunitárias, Cláudio Costa, enquanto o setor produtivo foi representado pelo presidente do sindicato, Leandro Cruz Freitas.
Para o secretário Costa, a presença do poder público na recepção reforça o reconhecimento institucional da importância histórica, econômica e cultural do tropeirismo. “Estamos valorizando esse caminho tropeiro que eles estão refazendo, algo que foi essencial para a economia rio-grandina e da região nos anos de 1700, com o arrebanhamento de gado que passava por aqui”, afirmou.

Na terça-feira (30), o grupo de tropeiros chega ao Sindicato Rural do Rio Grande, onde será recepcionado pela direção e CTGs do Município. Eles devem ser recebidos, também, pela prefeita Darlene Pereira. A passagem de final de ano do grupo vai ser no Rio Grande. Em seguida, seguem em direção a São José do Norte para dar prosseguimento ao longo trecho.

Resgate histórico

A chegada dos tropeiros simboliza mais do que uma simples travessia territorial. Trata-se de um resgate histórico de uma prática que remonta ao início do século XVIII e que teve papel fundamental no desenvolvimento do Rio Grande do Sul. “Estamos falando da primeira atividade econômica vinculada ao município do Rio Grande, que começou por volta de 1700 e pouco. A pecuária foi, e segue sendo, uma das grandes alavancas econômicas da nossa região”, disse o presidente do sindicato. De acordo com ele, o tropeirismo está diretamente ligado à origem do agronegócio no Estado. “Naquela época, o gado vinha principalmente da região da Colônia do Sacramento, hoje Uruguai, passava por aqui — região conhecida como Vacaria del Mar — e seguia até Sorocaba (SP), onde ocorriam grandes feiras e leilões. Hoje fizemos isso com caminhões e estradas, mas esse movimento nasceu a cavalo”, explicou.

Além da preservação da memória, o movimento também se conecta com o futuro do campo. O presidente do sindicato afirmou que há um trabalho de formação e incentivo à permanência dos jovens na atividade rural. “Temos comissões jovens e femininas, além de parcerias com o Senar – Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, oferecendo mais de 140 cursos gratuitos voltados ao campo. A ideia é mostrar que o campo também é uma alternativa viável e digna de vida e renda.”

Associação “Crina”

A liderança do grupo de tropeiros é atribuída a Adalberto Rodrigues Clavijo, de 63 anos, morador de Santa Vitória do Palmar e um dos fundadores da Associação Cultural Sociedade Crioula Nativista, ou simplesmente “Crina”, criada em novembro de 2024. Ele afirma que a ligação com o tropeirismo vem da infância e da vivência familiar na região do Albardão e da Praia do Hermenegildo. “Ou a gente se adaptava à tropa, ou não sobrevivia. Era assim. O gado se espalhava por quilômetros, e às vezes levávamos dez dias só para reunir uma tropa”, relembrou.

Iniciada no Passo do Chuí, a atual tropeada seguirá até o 36º Rodeio de Vacaria, passando por diversos municípios do Estado. O grupo é formado por 12 tropeiros, que conduzem nove cavalos e duas mulas, percorrendo entre 20 e 38 quilômetros por dia, conforme o terreno. O suporte é feito por um caminhão de apoio, que transporta alimentação e equipamentos, incluindo camas. Entre os integrantes da comitiva, chama atenção a presença fiel do cachorro “Russo”, sem raça definida, que acompanha o grupo por todo o percurso, reforçando o espírito de companheirismo que marca a vida tropeira.

De acordo com Clavijo, o tropeirismo no Rio Grande do Sul remonta a cerca de 300 anos, com destaque para figuras históricas como Cristóvão Pereira de Abreu, responsável por estruturar as primeiras rotas comerciais de gado e subprodutos, ligando o Sul do continente à economia colonial e até à Europa. “Essas tropas vinham pelo litoral, passavam por Rio Grande, São José do Norte, Mostardas, Santo Antônio da Patrulha, subiam a serra e seguiam até Sorocaba (SP). É essa história que estamos trazendo de volta”, afirmou.

A travessia, no entanto, vai além do simbolismo. Para os integrantes do grupo, trata-se de uma verdadeira tropeada, conceito histórico que envolve não apenas a condução de animais, mas também a circulação de mercadorias, saberes e vínculos entre comunidades. “Hoje, várias prefeituras que fazem parte dessa rota nos entregaram souvenires para serem levados e repassados a outros municípios. Isso também é tropeirismo: levar um pouco de cada cidade à outra”, explicou Clavijo.

Ele cita que a diferença entre cavalgada e tropeada está justamente no propósito. “A cavalgada é pontual. A tropeada é deslocamento, é transporte, é continuidade. Historicamente, existiam as tropas de gado aqui no Sul e as tropas de mulas, mais comuns do centro do país para cima, que levavam mercadorias entre comunidades. Estamos resgatando um pouco de tudo isso.”

Continuidade

A preocupação com a continuidade do movimento é um dos pilares da iniciativa. Um dos exemplos mais emblemáticos é a participação de um jovem de apenas 16 anos na tropeada atual. Após palestras realizadas em escolas da região do Chuí, o estudante se interessou pelo projeto e buscou apoio para integrar o grupo. “Ele passou de ano por média e essa era a condição para o ingresso. Conseguimos o patrocínio e hoje ele está conosco. É um jovem atento, interessado, e acredito que será um dos que darão sequência a esse trabalho no futuro”, destacou o líder dos tropeiros.

A associação começou de forma enxuta, mas com objetivos amplos. “A gente não olha para o próprio umbigo. O foco é levar cultura às outras comunidades, às escolas, e trazer essas pessoas para dentro do movimento. Quanto mais apoio das prefeituras tivermos, mais jovens vão se integrar”, explicou o líder dos tropeiros.

Esse movimento já começa a ganhar projeção regional. Clavijo conta que há conversas em andamento para a criação de uma associação voltada ao tropeirismo em nível regional, envolvendo municípios da Zona Sul e da Fronteira Sul. “Fomos procurados por um prefeito que demonstrou interesse em construir essa associação conosco. A ideia é unir forças e dar estrutura a esse resgate cultural”, afirmou.

Outro avanço significativo do movimento está no campo institucional. Dos 17 municípios que o grupo percorreu em uma tropeada experimental, ano passado, apenas Bom Jesus possui legislação instituindo o Dia do Tropeiro. A partir da articulação dos tropeiros, projetos foram apresentados às demais prefeituras, que aderiram à causa. No Rio Grande, a lei foi instituída com apoio do Legislativo Municipal, estabelecendo o Dia do Tropeiro em 22 de abril.

Rota Tropeira de Cultura e Turismo

A iniciativa abre caminho para um projeto ainda mais amplo: a criação de uma Rota Tropeira de Cultura e Turismo, ligando os Campos Neutrais aos Campos de Cima da Serra. “Essa rota não é nossa, é de todos. Pode ser percorrida a pé, de bicicleta, a cavalo, de moto, de carro ou em trilha. O importante é preservar o caminho, a história e a identidade que ele carrega”, concluiu Clavijo.

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