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Monumento ao Tambor de Sopapo marca celebração dos 289 anos de Rio Grande e resgata memória afro-riograndina
A celebração dos 289 anos de Rio Grande encerrou com samba, ancestralidade e um marco permanente de reconhecimento à contribuição da população negra para a construção histórica, cultural e social do Município.
20/02/2026
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Celebrada até a meia noite desta quinta-feira (19), a comemoração dos 289 anos de Rio Grande encerrou com muito samba e ritmos carnavalescos na Praça Tamandaré, no Centro Histórico, reunindo um grande público. Em meio às festividades, autoridades municipais, lideranças religiosas de matriz africana e integrantes da comunidade promoveram um momento histórico: a inauguração de uma escultura em formato de tambor de sopapo, símbolo de resistência e da cultura afro-sul-rio-grandense.
Construído em cimento, desde a última segunda-feira, o monumento homenageia dois mestres rio-grandinos percursionistas célebres do instrumento: Pássaro Azul (Adão Afonso Silveira) e Mestre Sardinha (João Jorge de Quadros), referências do Carnaval e da tradição percussiva local. A inauguração integrou a Mostra Musical e Cultural de Raízes Afro-Brasileiras e faz parte do projeto Caminhos Negros, idealizado pela Coordenadoria Municipal das Políticas de Promoção da Igualdade Racial, coordenada por Chendler Siqueira, que conduziu a solenidade.
O ato contou com a presença da prefeita Darlene Pereira, da secretária de Cultura e Economia Criativa (SMCEC), Rita Rache, gestores municipais, familiares dos homenageados, babalorixás, ialorixás e representantes da comunidade.
Autor da obra, o portuário Marcelo Vargas, de 62 anos, destacou a emoção de construir o monumento. Tocador de sopapo, surdo e violão, ele definiu a escultura como uma conquista pessoal e coletiva. “Foi uma vitória. Espero que esse sopapo seja mais um de todos que virão, para relembrar os velhos carnavais e valorizar quem construiu essa história”, afirmou.
Filha de Pássaro Azul, Maria Persília Silveira Espírito Santo, de 72 anos, recebeu a homenagem com gratidão. Ela relembrou a trajetória do pai, ilustrador de modas e tocador de sopapo na escola de samba As Mariquitas. “É uma lembrança maravilhosa para mim e para minha família. Só temos a agradecer por esse reconhecimento”, declarou.
Durante a cerimônia, a secretária Rita Rache ressaltou o caráter simbólico da inauguração. “É mais do que reconhecimento, é uma reparação histórica. No aniversário da cidade, a comunidade negra protagoniza esse momento, recuperando memórias que não podem ser apagadas. Essa história precisa estar nas escolas, nas ruas e nos espaços públicos”, afirmou.
Muito emocionada, a prefeita Darlene Pereira salientou o significado do ato como um pedido público de perdão pela invisibilidade histórica. Frisou que “este é um símbolo de reparação e respeito. A cidade é de todos e todas, e precisamos construir um município solidário, sem preconceito, valorizando as raízes que ajudaram a formar o Rio Grande”.
O sopapo e os mestres homenageados
Símbolo de identidade negra no Rio Grande do Sul, o sopapo é um tambor de grande porte, tradicional nas cidades de Rio Grande, Pelotas, São Lourenço e Porto Alegre. Está profundamente ligado às escolas de samba e aos blocos carnavalescos, sendo reconhecido como patrimônio cultural e expressão da ancestralidade afro-brasileira.
Pássaro Azul destacou-se como um dos mais ilustres tocadores de sopapo do Rio Grande. Integrante das escolas Vila Isabel e, especialmente, As Mariquitas — uma das primeiras do Estado —, tornou-se referência pelo toque cadenciado e potente, executado com as duas mãos, cuja batida marcava os desfiles e ecoava pelas ruas da cidade.
Mestre Sardinha foi cantor de samba de breque, mestre de bateria das Mariquitas e importante formador de ritmistas. Atuante desde a década de 1940, ajudou a consolidar a tradição percussiva afro-rio-grandina e manteve viva a presença marcante dos tambores no Carnaval local.
Da Geribanda à Praça Tamandaré
Durante a solenidade, Chendler Siqueira resgatou o significado histórico do espaço. A atual Praça Tamandaré era conhecida, no século XIX, como Praça da Geribanda — território negro marcado pelo trabalho e pela sociabilidade de homens e mulheres escravizados, livres e libertos. No local, cavavam-se poços para venda de água, realizavam-se lavagens de roupa e encontros culturais, com música, dança e manifestações de resistência.
Em 1865, o espaço foi renomeado em homenagem ao Almirante Tamandaré, processo que contribuiu para o apagamento da memória negra associada ao local. A inauguração do monumento ao sopapo, no mesmo espaço, simboliza o resgate dessa história e a valorização das narrativas afro-brasileiras na formação da cidade.
Rituais e baile
Ainda na Praça Tamandaré, na noite do aniversário do Município, o Baile da Cidade foi uma das novidades da programação, entre 21h e meia-noite. Também se manifestaram, culturalmente, no palco montado próximo ao coreto, a Escola de Dança Raquel Pereira e o grupo Kimbra - Cia de Dança.
Após a inauguração do monumento ao tambor de sopapo, houve o Baile da Cidade, com shows dos grupos Samba de Terreiro e Samba Show e encerramento feito pelo bloco carnavalesco Regueiros do Jamelão.
Feira Afro
A Mostra Musical e Cultural de Raízes Afro-brasileiras, realizada ao longo desta quinta-feira, teve, ainda, roda de capoeira e bate-folhas com babalorixás e ialorixás para o público presente. Também há exposições de trabalhos artísticos – Afro-gaúcho, por Thiago Madruga, O Sagrado Feminino, por Aldivo Mendes e Quilombo Macanudos – Território de Memória.
Na praça, está ocorrendo a Feira Afro, com trabalhos produzidos pela Biblioteca Vó Donga e Meninas de Oyá, Quilombo Macanudos, Ateliê Carla Trindade, Associação Casa de Artesanato dos Povos de Matriz Africana, Odoyá Frutos do Mar, entre outros. A mostra e a feira prosseguem nesta sexta-feira (20), a partir das 16h. Confira toda a programação no arquivo em anexo.
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