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Encontros orientam terreiros sobre acesso à Política Nacional Cultura Viva
Em dois momentos, ainda foi esclarecido como identificar certos locais, grupos ou coletivos que desenvolvem atividades e podem ser pontos ou pontões de cultura, conforme o regra a política nacional.
15/03/2026
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Lideranças religiosas ligadas a terreiros de matriz africana do município do Rio Grande participaram, na noite de sexta-feira (13) e no final da tarde e início da noite de sábado (14), de dois encontros realizados no Salão Nobre Deputado Carlos Santos, na Prefeitura Municipal. As atividades contaram com a presença de Mãe Carmen de Oxalá, líder religiosa e diretora espiritual da Associação Beneficente Cultural Africana Templo de Yemanjá (Assobecaty), de Guaíba, que orientou as comunidades locais sobre o acesso a políticas públicas, especialmente a Política Nacional Cultura Viva, do Ministério da Cultura.
Foram duas rodas de conversa coordenadas por Chendler Siqueira, titular da Coordenadoria Municipal de Políticas de Inclusão Racial. Nos dois momentos, ainda foi esclarecido como identificar certos locais ou grupos e coletivos que desenvolvem atividades como pontos ou pontões de cultura, conforme o regramento estabelecido na política nacional.
Na sexta-feira, o encontro reuniu religiosos de casas de matriz africana de linha contínua — aquelas que permanecem em funcionamento por mais de uma geração, preservando práticas, saberes e tradições transmitidos entre familiares e membros da comunidade. A atividade contou também com a participação da antropóloga Maria Helena Santana, representante do Museu Antropológico do Rio Grande do Sul (MARS), vinculado à Secretaria de Estado da Cultura (Sedac/RS).
Durante as discussões, Mãe Carmen trouxe a experiência da Assobecaty, o primeiro pontão de cultura do Rio Grande do Sul. E dentro desse, “nós também temos o pontão Pequena África, que é um projeto de resgate, reconhecimento e valorização das casas de linha contínua”, explicou. O trabalho realizado pela Assobecaty busca identificar, valorizar e fortalecer essas casas tradicionais, reconhecendo o papel cultural e histórico que desempenham nas comunidades. Conforme Mãe Carmen, além do aspecto religioso, esses espaços preservam conhecimentos, práticas culturais e memórias coletivas que fazem parte da história das populações afro-brasileiras.
A proposta abordada pela religiosa inclui a realização de um processo de identificação (mapeamento) dessas casas e o acompanhamento por acadêmicos que irão colaborar na construção de registros históricos e culturais. Esse material poderá contribuir para que os espaços sejam reconhecidos como pontos de memória ou pontos de cultura dentro das políticas públicas culturais. A dirigente também destacou a importância simbólica do Rio Grande nesse processo de valorização da ancestralidade afro-brasileira, lembrando o papel histórico rio-grandino como porta de entrada de populações africanas no Estado.
Reconhecendo o ponto de cultura
No sábado, a atividade teve caráter formativo e foi aberta a todos os terreiros do Rio Grande. A roda de conversa abordou a Política Nacional Cultura Viva e apresentou orientações sobre como as comunidades podem buscar o reconhecimento como ponto ou pontão de cultura junto ao Ministério da Cultura.
De acordo com Chendler Siqueira, o objetivo foi explicar os critérios e os caminhos para que os terreiros possam acessar editais e programas culturais nas esferas federal, estadual e municipal. Ele ressaltou que os terreiros já desempenham, na prática, um papel cultural e de preservação da memória, ao salvaguardar saberes ancestrais e promover atividades comunitárias.
Para mais informações sobre a Política Nacional Cultura Viva e como se cadastrar como ponto ou pontão de cultura, acesse o Cadastro Nacional de Pontos e Pontões de Cultura — Cultura Viva no link https://share.google/433fiKpJtVvA9QNGC.
Mapeamento das comunidades tradicionais
O trabalho desenvolvido durante os encontros na sede da Prefeitura Municipal dialoga com um mapeamento que está sendo realizado no Rio Grande pela Coordenadoria Municipal de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. A iniciativa busca identificar a presença e a atuação das comunidades tradicionais de matriz africana em diferentes bairros da cidade. Conforme Siqueira, o levantamento tem como objetivo compreender melhor a dimensão dessas comunidades e o impacto social e cultural que exercem nos territórios.
Até o momento, a equipe que faz o cadastramento local já percorreu seis bairros rio-grandinos e identificou mais de 690 comunidades tradicionais de matriz africana no Rio Grande. A expectativa é que o mapeamento seja concluído em novembro deste ano. Paralelamente a esse levantamento mais amplo, o trabalho conduzido por Mãe Carmen, no âmbito do projeto Pontão Pequena África, realiza uma busca ativa específica pelas chamadas casas de linha contínua, que são aquelas que se mantêm abertas e em funcionamento por mais de uma geração.
As duas iniciativas se complementam, pois enquanto o mapeamento municipal busca identificar o conjunto das comunidades tradicionais existentes, o projeto coordenado pela Assobecaty procura reconhecer e valorizar as casas que preservam tradições transmitidas ao longo de diferentes gerações.
Referência cultural: Instituto Filhos de Aruanda
Durante o encontro de sábado, houve a participação do fundador e presidente do Instituto Cultural Filhos de Aruanda, Cristiano Ávila Costa. A instituição, localizada na Rua Almirante Barroso, no Centro do Rio Grande, é reconhecida como ponto de cultura nacional desde 2016 e também possui reconhecimento nas esferas estadual e municipal.
O instituto é considerado uma referência no Município e no Estado na área da cultura comunitária. Atualmente, atende cerca de 200 alunos e oferece diversas atividades gratuitas para crianças e jovens, entre elas capoeira, dança, teatro, reforço escolar, jiu-jitsu, clube de cinema e biblioteca comunitária. Além das atividades culturais, o espaço também desenvolve ações de convivência e apoio comunitário, funcionando de segunda a sábado e oferecendo refeições e materiais para os participantes.
Cristiano Costa diz que a experiência do instituto demonstra que os terreiros e organizações comunitárias podem atuar como importantes centros de produção cultural e de fortalecimento social nos territórios. A partir dessa compreensão, muitas dessas instituições passam a buscar o reconhecimento formal como pontos de cultura, ampliando as possibilidades de acesso a políticas públicas e a editais de fomento cultural.
Ele também elucidou a importância da formação e da troca de experiências entre as instituições culturais para fortalecer a rede de pontos de cultura no Município. O Rio Grande conta, hoje, com 12 iniciativas reconhecidas ou em processo de reconhecimento dentro dessa política.
A programação dos dois dias de debates foi organizada pela Coordenadoria Municipal de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, com apoio da Secretaria de Município de Assistência Social e Direitos Humanos (SMADH) e parceria com a Secretaria de Município da Cultura e Economia Criativa (SMCEC), o Museu Antropológico do Rio Grande do Sul (MARS) e a Secretaria de Estado da Cultura (Sedac).
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