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Entre redes e marés, nasce uma parceria para cuidar da saúde das mulheres pescadoras
06/07/2026
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Há vidas que seguem o ritmo das marés. Antes mesmo do nascer do sol, mulheres lançam redes, recolhem histórias e sustentam famílias inteiras com o trabalho silencioso da pesca artesanal. É nesse cenário, onde o cuidado com a natureza e a produção de alimentos caminham lado a lado, que Rio Grande começa a construir uma nova rede: uma aliança entre ciência, gestão pública e comunidades tradicionais para fortalecer a saúde das mulheres pescadoras.
No último sábado (4), representantes da Prefeitura do Rio Grande, por meio da Secretaria de Município da Saúde (SMS) e da Secretaria da Pesca, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), integrantes da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e mulheres do setor pesqueiro participaram de uma série de encontros para discutir políticas públicas voltadas às comunidades das ilhas do município.
Durante a manhã, na Prefeitura, os pesquisadores da Fiocruz conheceram as iniciativas já desenvolvidas pela FURG e pela Secretaria da Saúde junto às comunidades pesqueiras e apresentaram o projeto nacional Mulheres Pescadoras: Autonomia, Igualdade e Sustentabilidade Ambiental. A proposta é construir uma parceria para que Rio Grande passe a integrar oficialmente a iniciativa, por meio de um acordo de cooperação técnica entre a Fiocruz e o município.
Para a secretária de Município da Saúde, Juliana Acosta, o primeiro passo para construir políticas públicas efetivas é ouvir quem vive diariamente essa realidade.
“A intenção é que a gente escute as comunidades, escute as pescadoras, compreenda quais são as situações de saúde e o que as equipes de saúde podem fazer para promoção da saúde e prevenção de doenças. Muitas dessas condições estão relacionadas ao processo de trabalho na pesca. Com isso, a gente qualifica a atenção das equipes de saúde que já estão nesses territórios.”
No período da tarde, a comitiva atravessou de barco até a Ilha dos Marinheiros, onde foi realizada uma reunião na Unidade Básica de Saúde da comunidade. O encontro permitiu que pesquisadores e gestores conhecessem de perto a realidade das mulheres pescadoras e ouvissem suas demandas diretamente no território.
Para a subprefeita da Ilha dos Marinheiros, Viviane Alves, a visita representa um momento histórico para a comunidade.
“É uma luta de muitos e muitos anos. É um sonho realizado que a Fiocruz esteja aqui, que a Secretaria de Saúde esteja aqui reconhecendo e dando visibilidade para nós, mulheres das águas e da agricultura familiar. Para nós é muito importante recebê-los aqui na Ilha para mostrar a nossa realidade.”
A integração entre os projetos da FURG e da Fiocruz fortalece um trabalho que já vem sendo desenvolvido no município. Coordenado pela Escola de Enfermagem da universidade, o projeto Saúde nas Águas: Promoção do Cuidado Integral e Educação Permanente com Pescadores e Pescadoras das Ilhas de Rio Grande/RS investiga como as condições de vida e trabalho impactam a saúde dessa população e leva ações de cuidado diretamente às comunidades.
Segundo a coordenadora do projeto, Sibele Castro, as iniciativas compartilham objetivos semelhantes e ampliam as possibilidades de atuação.
“A proposta que a gente já vinha articulando é fazer um diagnóstico das necessidades da população. Já realizamos ações de educação em saúde e percebemos que os projetos dialogam. Podemos somar esforços, principalmente nas ações educativas e no fortalecimento da vigilância popular.”
Além de gerar conhecimento científico, o projeto da FURG prevê ações educativas, fortalecimento da autonomia financeira das mulheres pescadoras e formação em vigilância popular em saúde.
Para o secretário municipal da Pesca, Luiz Gautério, a união entre universidade, Fiocruz e poder público permitirá construir respostas mais eficazes para os desafios enfrentados pelas comunidades pesqueiras.
“Estamos buscando entender quais são os problemas de saúde dessa comunidade para desenvolver políticas públicas mais assertivas. Diante das mudanças climáticas e das situações que já enfrentamos, precisamos fortalecer os aspectos sociais e de saúde dessas populações.”
Liderado pela Fiocruz em parceria com os Ministérios das Mulheres e da Pesca e Aquicultura, o projeto Mulheres Pescadoras: Autonomia, Igualdade e Sustentabilidade Ambiental promove pesquisas sobre saúde, meio ambiente, segurança alimentar, autonomia econômica e fortalecimento do protagonismo feminino na pesca artesanal.
O coordenador da iniciativa na Fiocruz, Hermano Castro, ressaltou que essas trabalhadoras ainda permanecem invisíveis para grande parte da sociedade, apesar de seu papel essencial na produção de alimentos.
“As mulheres pescadoras são fundamentais para a segurança alimentar, mas muitas vezes permanecem invisíveis. Precisam de um olhar diferenciado do sistema de saúde, porque enfrentam riscos relacionados ao trabalho, à contaminação ambiental e às mudanças climáticas. Queremos potencializar o trabalho que já vem sendo realizado em Rio Grande, fortalecendo a vigilância popular e a educação em saúde.”
A expectativa é que, a partir desse diálogo, Rio Grande passe a integrar a rede nacional do projeto Mulheres Pescadoras, ampliando pesquisas, ações de promoção da saúde e estratégias de cuidado voltadas às comunidades tradicionais.
Mais do que firmar uma parceria institucional, o encontro lançou novas redes sobre o território. Redes feitas de escuta, ciência e compromisso, capazes de aproximar o conhecimento acadêmico da sabedoria de quem, todos os dias, faz das águas seu trabalho, sua cultura e sua forma de cuidar da vida.
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