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7ª Mostra de Sementes Crioulas fortalece a agricultura familiar e a agrobiodiversidade no Rio Grande

Essa edição reuniu guardiões, pesquisadores e agricultores de toda a região Sul; concurso inédito de feijoada foi um dos destaques do encontro na Vila da Quinta

12/09/2026

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A preservação da agrobiodiversidade, a troca de conhecimentos entre gerações e o fortalecimento da agricultura familiar deram o tom da 7ª Mostra de Sementes Crioulas e da Agrobiodiversidade, realizada neste sábado (12), no CTG Raphael Pinto Bandeira, na Vila da Quinta, interior do Rio Grande. O encontro reuniu guardiões de sementes crioulas, agricultores, pesquisadores, professores, estudantes e representantes de instituições públicas de diversos municípios da região Sul em uma programação voltada à conservação das variedades tradicionais e à soberania alimentar.

Organizada pela Associação dos Guardiões de Sementes Crioulas do Rio Grande, a mostra teve como grande novidade o 1º Concurso Cultural de Feijoada, no qual dez cozinheiras prepararam seus pratos exclusivamente com variedades de feijões crioulos. Cada participante recebeu um quilo de uma variedade específica fornecida pela associação, transformando a gastronomia em uma forma de valorizar o patrimônio agrícola da região.

O sucesso da iniciativa foi tamanho que o concurso ganhou repercussão estadual e já tem nova edição planejada pelos organizadores para 2027. Além dos pratos concorrentes, o público ainda compartilhou uma grande confraternização gastronômica, com feijoada, carreteiro e saladas servidos aos visitantes. A vencedora foi Nícia Vlany Mendonça Pires, que conquistou os cinco jurados com uma feijoada preparada a partir da variedade Feijão Quarentino.

Além dos agricultores rio-grandinos, participaram guardiões e produtores de municípios como Piratini, Canguçu, Pelotas, Turuçu e São Lourenço do Sul, consolidando a mostra como um dos principais espaços regionais de intercâmbio de sementes crioulas. Também estiveram presentes pesquisadores da Embrapa, técnicos da Emater e representantes da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). A programação foi marcada por palestras e rodas de conversa sobre conservação genética, agroecologia, segurança alimentar e os impactos das mudanças climáticas sobre a produção rural.

Futuro das sementes

Guardiã de sementes crioulas, geógrafa e professora da rede estadual, Camila Oliveira Batista disse que a região Sul tem avançado, significativamente, na multiplicação das variedades tradicionais graças à união entre agricultores, universidades, Embrapa, Emater e associações locais. Iniciativas como o antigo projeto Adote uma Semente permitiram que novas famílias passassem a cultivar variedades crioulas, ampliando a conservação da biodiversidade em propriedades rurais do Rio Grande, Piratini, Canguçu e outros municípios.

Camila também chamou atenção para a necessidade de planejamento diante das mudanças climáticas. Para a professora, o excesso de chuvas altera todo o ciclo das culturas, exigindo dos agricultores maior organização no armazenamento das sementes, escolha das épocas de plantio e acompanhamento das previsões meteorológicas. Ainda assim, acredita que o futuro é promissor, principalmente pelo resgate da diversidade alimentar. Ela observa que grande parte da população conhece apenas duas ou três variedades de feijão, enquanto as sementes crioulas devolvem à mesa uma riqueza genética e nutricional que estava sendo perdida.

Dentro e fora do campo

A engenheira de alimentos e mestre em Ciência e Tecnologia de Alimentos, Débora Craveiro Vieira também integra o grupo de guardiões de sementes crioulas. Embora atualmente não produza em área rural, dedica sua atuação à educação alimentar e à disseminação desse conhecimento em ambientes urbanos. Débora realiza oficinas com crianças, jovens, adultos e idosos em escolas, empresas e espaços públicos, utilizando o cultivo de microverdes para ensinar o ciclo da natureza e mostrar que é possível produzir alimentos nutritivos em pequenos espaços, apenas com água, substrato e sementes. Seu trabalho busca aproximar as pessoas da biodiversidade alimentar, apresentando alternativas como feijões coloridos, grão-de-bico, pastas vegetais, hambúrgueres de leguminosas e outras preparações capazes de reduzir a dependência de alimentos industrializados e ampliar o consumo de produtos naturais.

Agricultor familiar, técnico em agropecuária, licenciado em Educação do Campo e estudante de Medicina Veterinária, Gibran Silva Schwerner representa uma nova geração de guardiões de sementes crioulas no Rio Grande. Ele conta que seu interesse nasceu ainda na infância, ao observar uma tia guardar sementes da própria colheita para o plantio seguinte. A curiosidade transformou-se em pesquisa acadêmica e, mais tarde, em compromisso com a preservação das variedades tradicionais.

Para Gibran, as sementes crioulas oferecem aquilo que considera o maior patrimônio da agricultura familiar: a autonomia. Ao produzir, guardar e compartilhar suas próprias sementes, as famílias reduzem a dependência de pacotes tecnológicos e de grandes empresas, preservando não apenas alimentos, mas também a história de indígenas, quilombolas, colonizadores e agricultores que construíram a identidade rural da região.

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